quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Capítulo 18 - Natal - Parte 2

Os parentes da Raquel continuavam a encarar Beca e sua cadeira de rodas, eles nunca deviam ter visto uma deficiente antes.
...
No começo da noite, Beca tentara ignorar os olhares sobre ela, era possível contar nos dedos de apenas uma das mãos àqueles que foram gentis e ao menos desejaram-lhe boas festas, com certeza essa era a primeira vez que um grupo da sociedade tratavam um deficiente com tamanha indiferença e talvez se não fosse o pré desconforto que vinha sentindo e de saber que Ian estava se divertindo de uma maneira que a surpreendeu, Beca teria certeza de que aquelas pessoas tinham o poder de manipular sensações apenas com olhares. Não que Beca preferia o Ian recatado, era o dia que tinha acordado com o pé esquerdo e tudo que ela mais queria era voltar para o hotel.
- Beca, está tudo bem? - Perguntou Raquel, sentando-se ao lado da colega.
- Só estou um pouco indisposta. Se importa se eu voltar para o hotel? - Perguntou Beca, esfregando a testa.
- Claro que não. Precisa de alguma coisa? Quer que eu vá contigo? - Perguntou a carioca preocupada.
- Não, tudo bem, só preciso me deitar, são as dores fantasmas. - Mentiu Beca, apontando para a perna.
- Oh, ok. Eu te ligo amanhã para saber se está melhor. - Respondeu Raquel.
- Tudo bem. Obrigada pelo convite, feliz natal! - Estimou Beca à Raquel.
- Você também. - Retrucou Raquel, com ar penoso.
Quando Beca subiu para o seu quarto no hotel, tirou o celular da bolsa para verificar se tinha alguma ligação perdida de Ian, em qualquer outra situação, haveria talvez até três chamadas não atendidas e algumas breves mensagens carinhosas e preocupadas com a garota, mas não hoje, não desmaiado como ele estava, sem ao menos saber onde dormira. Beca ligou para o celular do namorado uma única vez, até que a secretária eletrônica atendeu e ela optou por desligar, por fim, deixara apenas uma mensagem de "boa noite" e "espero que tenha se divertido" e ela estava sendo sincera. O peso daqueles olhares indiferentes sobre ela haviam sido maiores do que ela gostaria de admitir e os reflexos sentidos até mesmo na hora de tirar o traje de gala em troca da confortável camisola de seda amarela. Beca estava desnorteada e acabara se desequilibrando e caindo da cadeira ao tentar alcançar o creme que o serviço de quarto sem querer colocara numa altura complicada para a garota. Parecia que Beca precisava voltar a acreditar que aqueles olhares de desprezo não eram para ela e isso só seria possível, alcançando o creme. Não poder alcançá-lo doeu mais do que a própria queda, Beca chorou e pela primeira vez, odiou ser uma paraplégica.
...
Ian fora acordado pelo latejar incessante da sua cabeça e totalmente sem equilíbrio nos pés, pelo que saiu cambaleando e direto para o banheiro, pois o estômago ainda precisava expulsar o mal estar gerado na noite anterior. Ian tentava reconhecer o local, mas isso não aconteceria, só depois de sair do banheiro percebera que estava apenas com uma samba canção, o que lhe fez despertar totalmente e procurar pelo resto de sua roupa.
Ele foi encontrar sua camisa xadrez na porta da sala e a calça jogada num sofá de dois lugares, perto da janela.  No sofá do lado, de três lugares, havia uma moça que Ian não soube dizer se estava morta ou dormindo, até que finalmente percebeu que respirava, mas ele optou por não olhar muito, já que a garota estava vestida apenas com roupas íntimas. Os cabelos louros e lisos estavam jogados sobre seu rosto, mas Ian reconheceu ser a mesma garota que gritara seu nome enquanto falava mais cedo com Beca ao telefone; "Beca!" Lembrou Ian. Depois de correr pela casa a procura de sua calça, Ian finalmente a encontrara embaixo da garota do sofá. "Aí meu Deus, que foi que você fez, Ian?" Perguntou-se o garoto petrificado diante da cena da jovem semi nua deitada em cima da sua calça.
- Aí está você! - Gritou Fábio, saindo de algum lugar que Ian não soube identificar.
- Ai, fala mais baixo. - Pediu Ian, levando as mãos à cabeça que continuava latejando.
- Ressaca, hã? - Disse Fábio. - Primeira vez? - Perguntou Fábio, indo até a cozinha.
- Sim. - Respondeu Ian deslocado.
- Toma, bebe isso que vai te fazer bem. 
Fábio colocara uma aspirina num copo com água que rapidamente começou a ferver no copo, Ian virou em três grandes goladas.
- O que aconteceu? - Perguntou Ian nitidamente sem memória.
- Então não se lembra? - Perguntou Fábio com um largo sorriso.
- Não... - Respondeu Ian receoso.
- Aquela garota estava totalmente na sua, garoto! - Informou Fábio.
- A gente...? - Ian não tinha coragem de terminar a pergunta, mas receava pela em ouvir a pior resposta.
- Olha, bem que Ketty tentou. - Disse Fábio. - Mas só o que conseguiu foi um beijo muito do forçado e aí você fugiu e ela caiu no sofá.
- Como não me lembro de nada disso? - Perguntou Ian abismado.
- Nunca, aceite bebida de estranhos. Sua mãe nunca te ensinou isso? - Respondeu Fábio, se divertindo com o estado do colega.
- Eu beijei outra garota...que droga! - Pensou Ian, desapontado consigo mesmo.
- Cara, você foi beijado, muito a força, isso depois de ter sido drogado. Relaxa, Beca vai entender.
Depois de muito custo, Ian finalmente conseguiu retirar a calça debaixo de Ketty, se esforçando ao máximo para não olhá-la naqueles trajes, mas era impossível, já que sua calça estivera totalmente por baixo de Ketty.
Uma chamada perdida
- Alô Beca? - Disse Ian quando a garota o atendeu. - Oi meu amor, me desculpa não ter te atendido ontem.
- Você está bem, Ian, parece agitado. - Perguntou Beca.
Já era perto do horário do almoço, Beca estava começando a organizar as malas para viajar no começo da noite.
- Eu, agitado? Ah, não! É que acabei dormindo demais e não queria ter perdido sua ligação. - Omitiu Ian. - Como você está? Como foi ontem?
- Foi tudo bem. - Mentiu Beca, preferi voltar cedo. - O que vai fazer amanhã durante a tarde? - Perguntou Beca desconversando.
- Hum, Fábio me chamou pra jogar basquete com uns amigos, eu disse que não sabia, mas ele insistiu que eu fosse. - Respondeu Ian.
- Que tal ir me buscar no aeroporto? - propôs Beca.

Capítulo 17 - Natal - Parte 1

Raquel levara Beca para lugares incríveis, o Teatro Municipal com uma arquitetura magnífica, de olhar para cima e contemplar a criatividade que o homem pode ter para fazer e restaurar prédios. Mas,  a subida ao Pão de Açúcar certamente fora o melhor momento para Beca, que a fez voltar no tempo e lembrar de sua infância com Ian, quando o garoto empurrava sua cadeira, fazendo seus cabelos dançarem ao impulso do vento. Beca sempre gostara da sensação de liberdade e de alturas, um leve sorriso apareceu quando sentiu a brisa do lugar tocar sua face e trazer uma leveza em seu corpo.
- Tu gostou da vista? - Perguntou Raquel, com o típico sotaque carioca.
- É incrível! - Disse Beca, voltando a realidade. - Muito obrigada por me trazer aqui!
- Foi nada! - Respondeu Raquel descontraída. - E me diz, onde tu vai passar esse fim de ano? - Perguntou a carioca.
- O natal passarei por aqui mesmo. No ano novo, consegui antecipar a passagem, acho que dessa vez conseguirei fazer uma surpresa pro Ian. Ele espera que a gente se encontre apenas no dia primeiro. - Explicou Beca.
- Caracas, ele vai amar, tenho certeza. Pode deixar que fico de olho se ele também mudar a passagem. - Afirmou Raquel. - Bom, estão você é minha convidada para o natal, meus pais sempre oferecem uma grande ceia, você só precisa do traje. Eles são do tipo, vestidos longos e smokings. - Completou.
- Humm, acho que precisarei de um vestido, neste caso. - Respondeu Beca.
- Sem problemas, adoro fazer compras e de quebra, tu vai conhecer o passeio predileto de nós mulheres, haha.
 Alguns poucos dias depois, Beca estava terminando de se arrumar, quando seu celular tocou, era Ian.
- Oi meu amor! - Disse Beca, cheia de mimos com Ian.
- Feliz natal, linda! - Respondeu Ian.
- Feliz natal pra você também! Onde você está? Que barulho todo é esse? - Perguntou Beca.
- Fábio me trouxe para algum bar, em algum lugar aqui da cidade. Espera, vou sair para conversarmos. - Gritava Ian. - Pronto, agora posso te ouvir também.
- Pelo jeito estão se divertindo. - Comentou Beca.
- Bom, talvez Fábio não seja tão ruim quanto eu pensava, eu também conheci mais alguns amigos. - Admitiu Ian.
Nos dias anteriores Fábio ajudara Ian pelo menos para sobreviver, mas sempre que podia também estava presente para levar o novo colega para conhecer Boston. Aos poucos, Ian acabou deixando de lado o ciúme e começara a curtir mais as férias e já tinha se enturmado com os amigos de Fábio.
"Vem Ian! Você ficar de fora!" Gritou uma voz no fundo. O português era bem enrolado, mas dava para entender que uma garota americana o apressava.
- Quem é a garota te chamando? - Perguntou Beca intrigada.
- Eu a conheci hoje, veio com a turma. - Explicou Ian, sem reparar no tom de Beca.
Que Ian sempre demonstrava mais suas emoções que Beca era fato incontestável, mas o garoto também conseguia ser desligado para coisas simples e mesmo sem perceber, ele estava dando menos atenção do que deveria à Beca e com um agravante: uma garota desconhecida estava gritando seu nome ao fundo. Beca dera uma esmorecida do outro lado da linha, não por achar que Ian pudesse traí-la, isso seria a primeira preocupação de qualquer outra garota, mas para Beca, era a suposição de que o namorado estava desfrutando de uma vida que nunca poderia desfrutar com ela, pelo menos assim Beca sempre acreditara ser. Talvez isso realmente fosse uma aventura que Ian estava descobrindo gostar, mas em nenhum momento que esteve com Beca, esse tipo de curtição fora reprimido, os dias com Beca sempre foram muito bem vividos e amados , mas talvez agora ele estivesse percebendo o quanto gostava dessa liberdade e agitação que a vida jovial poderia lhe proporcionar.
- Bom, eu preciso ir, daqui a pouco o motorista da Raquel passará e ainda não terminei de me arrumar. A gente se fala depois. - Disse Beca, sentindo-se um pouco desconfortável.
- Tá bom! Divirta-se! - Disse Ian sem questionar, o que aumentou a frustração de Beca.
Foi o tempo de Beca desligar o celular e o telefone do seu quarto tocou, era da recepção, informando que o motorista que à levaria até a casa dos pais da Raquel havia chegado. Beca vinha de uma família de dinheiro, mas eles não faziam o tipo que ostentava a riqueza, quando morava em São Paulo, vivia numa casa confortável e uma boa escola, mas nada que vissem a necessidade de demonstrar publicamente para a vida alheia, por isso havia insistido para Raquel de que iria de táxi, mas a carioca insistiu que disponibilizaria o motorista da família. Na verdade, olhando para Raquel, claro que se via muita beleza na carioca, mas ela tinha o típico perfil de filha rebelde da família milionária, ainda assim, tinha seus limites e por isso insistira para que Beca utilizasse o motorista da família, o que fazia Beca sentir-se um pouco desconfortável do que esperar desse natal atípico.
Beca se olhou mais uma vez no espelho não para ver como estava, na verdade queria ganhar tempo, ou encontrar o ânimo que havia perdido para a noite de natal, algo lhe dizia que a noite seria no mínimo sem graça.
Quando o carro em que estava se aproximou da casa de Raquel, Beca deu uma respirada fundo e entendeu porque estava tão apreensiva. O carro fez a curva para entrar num condomínio fechado, que desde a portaria esnobava uma elegância maior do que a frente da sua própria casa, a portaria devia ter o tamanho de uma casa de dois quartos espaçosa, pintada num tom nude, com pilares enormes separando o lado de entrada e saída de veículos, do lado de fora, dois seguranças com escutas ficavam parados, apenas observando a movimentação da rua. Pessoas ricas tendem a intimidar e Beca, apesar de sempre ter lidado bem com pessoas e seus atos egoístas, não gostava de ter que enfrentar ricos esnobes e cheios de si mesmos. "Meu Deus Ian, onde eu fui me enfiar?" Pensou Beca olhando pela janela e tentando enxergar o limite dos pilares.
Na entrada da casa, havia alguns convidados chegando também em seus carros luxuosos, todos com motoristas. As mulheres desfilavam joias e diamantes e vestidos longos cintilantes, enquanto os homens, a fineza dos smokings e gravatas borboleta. Nem as crianças escapavam, vestidos e mini smokings perfeitamente alinhados no corpo e o andar acusava que provavelmente passavam por aulas de etiqueta para se comportarem nesse tipo de ocasião. "Não dou dez minutos até ver essas crianças descabeladas, correndo por essa mansão." Comentou Beca, consigo mesma.
- Beca, que bom que finalmente chegou! - Disse Raquel, vindo recebê-la. 
Beca apenas forçou um sorriso de simpatia, sabia que Raquel era inocente de seus pressentimentos para aquele natal. Ela ajustou o vestido para sair do carro e sentar-se na cadeira, não queria que ninguém a carregasse, isso era algo muito íntimo. Raquel apenas ficara segurando a cadeira para que ela não se afastasse de perto do veículo. Beca percebera alguns olhares em sua direção não muito confortáveis, mas decidiu ignorar, esta noite ela teria que exercer todo seu lado artístico para conseguir passar incólume.
- Desencana desse povo, Beca! É o que eu faço. - Disse Raquel, percebendo o desconforto da colega com os olhares tortos em sua direção.
A fachada da casa estava toda iluminada por pequenos piscas piscas branco, o que deixava com aspecto de ser uma casa feita de pérolas. No interior, o piso era todo bem claro, na verdade todo o ambiente era em tons bege e branco com objetos em preto e vermelho, tornando o contraste vivo e notório por todo o ambiente. Depois de passar pelo corredor, via-se uma escada à direta, que dava para o segundo andar, onde certamente ficavam os quartos. Foi preciso correr todo o corredor até chegar nos fundos da casa, com um gramado num verde perfeito e uma tenda exibindo a mesa com o cardápio de entrada daquele jantar.
...
Enquanto isso em Boston, Ian desfrutava da melhor noite da sua vida, o rapaz nunca havia pernoitado antes, nem mesmo quando adolescente, sempre se atentou para o toque de recolher que os pais estipulavam, não que eles fossem rigorosos, apenas colocavam limites. Ian conheceria em breve o que era sofrer por enxaqueca. O que começara com um copo de shopp, fora aumentando e as bebidas mudando. Como boa parte dos bêbados de primeira viagem, logo Ian estava totalmente fora de sim, passando mal e precisando ser carregado de volta para a casa, o problema, é que não foi para a sua, ou bem dizendo, para a casa da Beca que ele fora levado.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Capítulo 16 - Amiga Carioca

Se é possível resumir Ian e Beca numa única palavra com certeza é singularidade.
...
Fábio ficara alguns instantes sem nada dizer após o comentário de Ian.
O garçom parou com uma pequena caderneta na mão direita e caneta na esquerda, pronto para coletar o pedido dos rapazes. Fábio falou alguma coisa que Ian entendera apenas como sonoros enrolados, mas interpretou que o colega havia pedido que o garçom voltasse dentro de instantes, já que o garçom fez cara de enervado e saiu sem ao menos um aceno de concordância com a cabeça, mas os rapazes pouco se importaram, Ian estava ocupado demais esperando a reação de Fábio e também tentando se conformar com as férias nada românticas que insistiam em vir lhe cutucar a memória e Fábio, bom, Fábio estava tentando reagir a novidade que o colega acabara de lhe contar.
- Caracas Ian, você ia propor casamento à Beca! - Reforçou Fábio.
- Sim, eu ia. - Concordou Ian, mexendo e remendo o jogo de xadrez da mesa.
- Poxa cara, eu realmente sinto muito.
- Tudo bem.
- Espero que você não desista! - Disse Fábio.
- Você já amou, Fábio? - Perguntou Ian, se inclinando para frente, com os braços apoiando-se na mesa.
- Bom, amar é uma palavra muito forte, já gostei! - Ponderou o rapaz.
- Gostar é o princípio do amor, portanto, tão forte quanto. Se o gostar persistir, então você amou, se não, foi apenas empatia. - Avaliou Ian. - O que sinto por Beca é exatamente o gostar, gosto de amá-la, como gosto de dormir! - Disse Ian. - E quem não gosta de dormir? Amar Beca é isso, é um descanso pro meu coração. Enfim, meu caro colega - disse Ian se ajeitando na cadeira - pode ter certeza que não desistirei!
Ian apesar de ter crescido nunca perdera sua essência, um estilo que o tornava singular, a sinceridade nas palavras, nos sentimentos, sem se importar em se expor, em questionar e ainda assim manter-se sempre tão firme com suas verdades, como o amor que sentia por Beca. Ao mesmo tempo em que as vaidades do mundo o confrontavam e ele buscava entender o porquê de tais atitudes e por vezes se frustrar com as pessoas, Ian nunca deixara de manter a fé nas pequenas atitudes que tiravam sorrisos, abraços e gentilezas. Então, não, ele não desistiria de Beca.
...
Na manhã seguinte, logo cedo, Beca acordara renovada da viagem com planos de conhecer os amigos de Ian e decidiu ligar para o rapaz afim de conseguir alguma informação de quem poderia conhecer.
De: Ian
Para: Beca
Beca!!! Sai para jantar ontem com o seu colega e acabei deixando o celular carregando. Quase dei um jeito de voltar no mesmo momento que li sua mensagem, ai destino "desgramento"!!!
Ps.: Precisamos conversar mais sobre a beleza do seu amigo!

- Alô? - Ian atendera o celular ainda zonzo de sono.
- Bom dia!!! - Disse Beca toda alegre do outro lado.
- Que horas são? - Perguntou o rapaz confuso.
- Cedo meu amor, muito cedo.
- Aconteceu alguma coisa? - Perguntou Ian.
- Sim! - Respondeu Beca. - Preciso conhecer seus amigos, preciso que me ajude, como eu te ajudei.
- Eu não vou te apresentar para os meus amigos! - Retrucou Ian indignado.
- Claro que vai! Eu te apresentei o Fábio, ué! 
- Acredite, eu não estou agradecido em conhecê-lo! - Respondeu o garoto.
- Anda Ian, alguém? - Insistiu Beca.
- Você devia ter ido para a casa dos seus pais, isso sim! - Disse Ian se levantando. - Bom, minha amiga Raquel está na cidade, na verdade ela é carioca.
- Amiga né? - Retrucou Beca em tom sarcástico. - E você achando ruim do Fábio!
- É diferente. - Retrucou Ian gaguejando.
- Ah, claro, isso é o que veremos. - Disse Beca. - Queria conhecer o Rio, será que ela topa um passeio com uma cadeirante?
- Raquel é incrível, tenho certeza que ela vai te adorar. - Respondeu Ian. - Vou falar com ela.
- Incrível, hã? - Repetiu Beca, não muito satisfeita. - Ok, estou aguardando sua amiga incrível.
- Até parece que você está com ciúme, não faz seu estilo. - Brincou Ian.
- Quem disse que estou com ciúmes? - Perguntou Beca. - Preciso desligar, meu café da manhã chegou.
- Olha só você, saindo pela tangente! Ok, te aviso se ela irá aí hoje. Beijos.
Algumas horas mais tarde o telefone do hotel toca e a recepção avisa Beca de que Raquel a aguarda no saguão. Beca já estava pronta, pouco tempo depois de falar com Ian, o rapaz lhe avisara por mensagem de que Raquel havia amado a ideia de conhecer Beca e as duas combinaram de conhecer alguns locais históricos da cidade. 
Raquel estava sentada no sofá que ficava de frente com a recepção, quando Beca à viu, pensara estar de frente com uma dessas rainhas de escola de samba, o corpo escultural, de fazer qualquer homem torcer o pescoço, pele morena jambo, cabelo liso escuro e um belo par de olhos verdes, Beca acabara de entender o incrível de Ian. "Seria melhor ele ter mentido que não tinha nenhum amigo na cidade" pensou Beca.
- Você deve ser a Beca! - Disse Raquel, abrindo um sorriso de garota propaganda de pasta de dente.
- Prazer conhecê-la! - Disse Beca.
A diferença de Beca para Ian no quesito ciúme, é que Beca era atriz digna de oscar, enquanto Ian, nem como árvore poderia contracenar. 
- Ian me disse que você quer conhecer o Rio de Janeiro, serei sua guia turística nos próximos dias!
- Maravilha! Vamos? - Perguntou Beca.
De: Beca
Para: Ian
Garota incrível, né? Temos muito o que conversar!
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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Capítulo 15 - Reconhecimento de Território

Para Beca, um infortúnio era transformado em desafio e nesse momento, o desafio era aproveitar as férias longe da surpresa que faria à Ian e ela estava se saindo muito bem.
...
Não que Beca era insensível, é bom sempre enfatizar essa questão, mas a perspectiva de vida da garota era diferente de outras meninas da sua idade, que normalmente sonhavam com tantas possibilidades na vida, mas em alguns momentos se viam obrigadas a traçar outros planos, porque a verdade é que muito desejamos, mas também precisamos estar preparados para o que a vida deseja de nós e nem sempre essas vontades coincidem. O que acham? Certamente que para Beca as férias ideais era chegar de surpresa onde o namorado estava morando e ver aqueles olhos que expressavam tanta sinceridade lhe dizendo "finalmente". O quanto Ian fazia Beca se sentir a pessoa mais especial do mundo era algo que talvez ninguém consiga mensurar, mas Beca aprendera com as artimanhas da vida que tudo que lhe vier deve ser desfrutado como puder.
"Se a vida te der limões, faça uma limonada." Algum sábio disse por aí.
Enfim, Beca chegara ao hotel que seus pais lhe ajudaram a encontrar para que ela ficasse e apesar deles terem insistido com bastante veemência para que a garota estendesse a viagem para São Paulo onde moravam, Beca optou por agregar novas experiências com os amigos de Ian e curtir a virada de ano na cidade intitulada de "cidade maravilhosa".
Ian por sua vez, encarava o atual amigo capa de Vogue da sua namorada e não conseguia entender como um cara daqueles poderia estar estudando em Harvard, ele poderia estar bombando como algum famoso, galã de novelas, "mas porque eu estou pensando nesse cara de galã?" Perguntava-se Ian, fazendo alguma careta, o que acabou provocando certa estranheza em Fábio.
- Está tudo bem, Ian? - Perguntou o rapaz.
- Ah, sim...claro! - Respondeu Ian, balançando a cabeça para fugir daqueles pensamentos.
"Certeza que ele vai querer bancar o bom rapaz pra impressionar Beca." Ian definitivamente não conseguiria disfarçar seu desconforto com relação a Fábio.
- Beca fala muito sobre você. - Disse Fábio, tentando puxar assunto com Ian.
- Ah, deve falar mesmo! Concordou Ian, com a cara de indiferente. - Mas, ela nunca me falou sobre você. - Retrucou Ian, indelicado.
- Ah, bom, nos conhecemos há pouco tempo, ainda não deu para eu ser pauta de assunto. - Brincou Fábio.
Ian apenas retribuiu o sorriso, tentando entender o que exatamente Fábio estava insinuando. 
- Bom, você deve estar faminto, posso te levar num lugar gostoso e barato, aqui perto. - Continuou Fábio.
- Pode ser.
...
Enquanto isso, Beca pedia serviço de quarto e planejava ficar descansando por essa noite, pós viagem. Apesar de ser paralítica, Beca tinha o que chamavam de dores fantasmas, é quando um membro do corpo amputado ou sem sensibilidade parece doer, na verdade é tudo na mente, mas ainda assim, inevitável. O hotel ficava de frente com a praia do Leblon e Beca podia sentir a maresia que entrava pela sacada do quarto, convidativa a ir aproveitar o desfrute. Por algum tempo, Beca se esquecera da dor e do contratempo, dando espaço para o vislumbre que o lugar proporcionava.
De: Beca
Para: Ian
Meu amor, como eu queria você aqui comigo agora, esse lugar é um paraíso e você é a melhor parte para completar meu mundo!
Com amor, Beca.
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Ian havia deixado o celular carregando em casa para ir jantar, pelo menos enquanto estivesse com Fábio, estava seguro da língua estrangeira não dominada. Aos poucos o rapaz foi se acostumando com Fábio e percebendo um cara legal e considerando que talvez não seria tão ruim ter a ajuda do modelo para sobreviver naquele país.
- Então, Beca me contou do desencontro, que chato hein cara? - Disse Fábio, enquanto escolhíamos uma mesa no restaurante.
- Eu ia pedi-la em casamento. - Confessou Ian.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Capítulo 14 - Vogue

"Good luck" disse o sarcástico taxista depois de deixar Ian no endereço que Beca lhe informara.
...
- É, acho que precisarei de muita sorte mesmo! - Respondeu Ian consigo mesmo, já que o motorista já havia sumido de vista.
Aos poucos o rapaz foi recuperando a sanidade, o que nessa circunstância não era lá grande coisa, já que seu cérebro voltara a funcionar e processar a situação complicada em que havia se metido: passarei o natal num país estranho, de língua desconhecida e o pior de tudo, bem longe da Beca.
...
Beca ainda não havia parado de rir, se quer conseguia disfarçar o descontrole emocional, fazendo com que as pessoas a sua volta lhe dessem uma olhada de estranheza. Ela estava com a mala no colo e conduzindo sua cadeira de rodas motorizada para a parte de fora do aeroporto, em direção à um táxi, mas fez uma pausa para discar a última chamada e retomar a ligação de Ian.
- Hey! Está melhor? - Perguntou Beca, ao ouvir o "alô" do rapaz.
- Eu estou ferrado, Beca, estou muito ferrado mesmo! - Respondeu Ian com cara de apavorado.
Foi impossível Beca tentar controlar o ataque de risos novamente, deixando Ian boquiaberto com a falta de compaixão da garota.
- Você está rindo? Sério, Beca? - Continuou Ian inconformado.
Beca continuava descontrolada com seu acesso de risos e acabou não demorando muito até que Ian cedesse ao fato no mínimo cômico em que se encontravam.
- Eu não acredito na proeza que conseguimos. - Disse Beca, ainda tentando se recompor.
- Beca, eu não sei se quer pedir água em inglês. Eu tô ferrado! - Retrucou Ian, dando ênfase na última afirmação.
- Relaxa, tenho um amigo brasileiro aí, ele vai te socorrer. - Respondeu Beca.
- Amigo? - Perguntou Ian sismado. - Você nunca me falou que tinha um amigo brasileiro aqui.
- Eram muitas novidades, não dava pra falar tudo de uma vez. - Explicou Beca.
- Hum, tá. - Respondeu Ian, pouco satisfeito com a explicação da garota. - Qual o nome dele, como ele é?
- Fábio e é bem bonitão para ser honesta. - Respondeu Beca, nitidamente satisfeita em perceber o tom ciumento de Ian.
- Você sempre brincando  comigo, Maria Rebeca. - Respondeu Ian, tentando descontrair, mas ainda incomodado por haver outro cara na vida de Beca.
Ian nunca fora o tipo de namorado ciumento ou grudento, mas, como desde pequeno esperava o melhor das pessoas, assim como ele as via, temia que esse tal de Fábio poderia ser quem sabe outro cara legal e facilmente se apaixonaria por Beca e por que não, Beca por ele? Beca já era mais desapegada e demorava a perceber alguma coisa que os outros percebiam antes, mas Ian era para ela um livro aberto, Beca reconhecia o humor do rapaz apenas num olhar, ou numa ligação a distância, mas com Fábio, Beca nunca havia reparado se havia algo mais e também não estava preocupada em encontrar outro amor. Ian era suficiente, sempre seria.
- Deixa de besteira, Ian, Fábio é apenas um amigo e é bom você se acostumar, você precisará e muito da ajuda dele. - Respondeu Beca, tentando tranquilizar o rapaz.
- Quando você volta? - Perguntou Ian, ignorando o conselho de Beca.
- Dia 2 de Janeiro. - O Projeto que estou participando já terá retomado as pesquisas, o pessoal não quer perder tempo. - Explicou Beca. - E você?
- Dia 1. - Respondeu Ian, num tom de desapontado.
- Olha aí, teremos pelo menos algumas horinhas juntos! - Celebrou Beca.
- Não será o suficiente. - Retrucou Ian.
- Nunca será suficiente, por isso é amor! O amor sempre pede mais, Ian! - Justificou Beca.
Não há algo mais contraditório do que o amor, quanto mais o temos, mais queremos ter, mais queremos ser saciados e também compartilhar. Sempre queremos demonstrar para a outra pessoa o quanto ela é especial e ainda assim ele consegue ser suficiente para completar sorrisos e trazer paz.
- Eu também te amo! - Respondeu Ian. - Mas agora eu preciso desligar, essa ligação vai lhe custar muito. - Lembrou o rapaz.
- Tudo bem. Se o telefone fixo tocar, atenda! - Recomendou Beca. - E Ian, tenta curtir as férias. - Completou Beca.
- Onde você ficará? - Perguntou Ian, lembrando que Beca estava sozinha em solo carioca.
- Num hotel perto do Leblon. Te amo. - Respondeu Beca, se despedindo.
Que a família de Beca era rica, Ian já sabia, sua vida universitária e econômica que o fez se esquecer o quanto.
Ian explorou a casa de Beca, fazendo um reconhecimento de território. Beca dividia a casa com mais uma colega francesa, que também estava viajando, o que significava que a casa era toda do rapaz. A casa era térrea, para facilitar a locomoção de Beca, toda de carpete, com dois quartos, um de frente ao corredor que ligava com a sala e outro na lateral, esse era o de Beca. A cozinha não tinha diferença da arquitetura americana, um balcão dividindo os ambientes, mas com armários todos baixos, também adaptados para ajudar Beca na hora de fazer as refeições.
Ian levou a mochila até o quarto de Beca, a cama minunciosamente arrumada, nada havia fora do lugar, sequer um chinelo, Beca podia ter uma personalidade descontraída, mas era extremamente perfeccionista e gostava de tudo milimetricamente organizado; "eu tô ferrado" pensou Ian, ao analisar o ambiente, o rapaz desde sempre, fora um furacão, por onde passava, deixava seu rastro de destruição, roupas, meias e cuecas, todas jogadas pelos cantos.
Depois de algumas horas, a campainha tocou, Ian estava sentado no sofá da sala, tentando achar algum programa de tv com legenda, ou ao menos uma novela global, que lhe suprisse a abstinência pelo velho idioma. O rapaz parado na porta, era mais alto que Ian, cabelo liso castanho, corpo atlético, parecia modelo capa de revista para a Vogue. 
- Pois não? - Disse Ian, ao ver o rapaz.
- Ian? - Perguntou o rapaz.
- Sim. Você é o Fábio? - Perguntou Ian, incrédulo. Beca não mentira quando afirmou sobre a beleza do rapaz.
- Beca me disse que você estava precisando de um socorro. - Sorriu o rapaz com simpatia.
- Ela é uma exagerada. - Disfarçou Ian. - Entre.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Capítulo 13 - Surpresa!!!

Sim, a vida nos prega peças e esquece de perguntar se gostamos do gênero "surpresa".
...
Quando as férias finalmente chegaram, Ian havia planejado uma viagem surpresa, ainda que de classe econômica para Cambridge, Massachussets, onde Beca residia atualmente. Embora demasiado nervoso por ser sua primeira viagem longa de avião e noção zero da língua estrangeira, o rapaz estava deveras animado por finalmente poder rever a amada pessoalmente. O que ele não sabia, é que o destino ao tentar ajudar o casal, promoveria o maior desencontro amoroso de todos os tempos, Beca também havia planejado fazer uma surpresa ao rapaz e desembarcaria no Rio de Janeiro na mesma data que Ian estaria de chegada aos Estados unidos. 
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23 de Dezembro de 2015, 19h45, horário de Whashington.
Ian está com uma mochila de aventureiro pregada em suas costas, olhando a correria dos passageiros desembarcando e abraçando seus familiares, sem fazer ideia de como se quer, perguntar onde pode fazer uma ligação. Tudo o que ele tinha ao seu favor, era um papel com sua letra torta o qual escrevera o endereço de Beca; 
"Boylston St com a Ipswith St 22015"
Ian se quer sabia o que significava aquelas coordenadas, "que endereço mais confuso, por que não pode ser um único nome de rua com o número da casa? Que povo complicado!" "Ok, talvez agora eu deva pedir socorro para a Beca" pensou Ian. A ideia era surpreeender Beca na porta da casa em que estava morando, mas os planos precisariam ser mudados.
Beca estava no Aeroporto Tom Jobim, acompanhada de um profissional da companhia aérea que lhe ajudaria a pegar sua mala na esteira. O aeroporto estava lotado de pessoas chegando de viagem para passar as datas festivas com seus familiares ou amigos. Beca pegou o celular para conferir se havia alguma notificação no mesmo instante em que ele tocou e a foto de Ian aparecera na tela do visor.
- Ian! Adivinha onde eu estou? - Disse Beca com um largo sorriso.
- Eu espero que na sua casa, pra poder me socorrer. - Respondeu Ian.
- Como assim te socorrer? Onde você está? - Perguntou Beca confusa, mas ainda sorrindo.
- Hum...vejamos...aqui no Aeroporto Internacional de Boston, surpresa!!! - Respondeu Ian, nitidamente deslocado.
- Você está de brincadeira, né? - Perguntou Beca boquiaberta.
- Não. E preciso que você venha até aqui me buscar, porque eu nem imagino como explicar para o taxista este seu endereço. - Explicou Ian, olhando novamente para o papel com as coordenadas.
- Ian, eu estou no Rio, eu vim te fazer uma surpresa! - Retrucou Beca ainda sem acreditar no que estava acontecendo.
- Para Beca, é sério, você precisa vir aqui me buscar. - Respondeu Ian, sem acreditar na namorada.
- Ian, eu estou falando muito sério, eu estou saindo da sala de desembarque e pretendia te fazer uma surpresa. - Respondeu Beca pausadamente para que Ian registrasse cada palavra.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha...
- Ian? - Chamou Beca uma vez. - Ian, alô, Ian, você ainda está na linha?
- Ahan! - Respondeu Ian abalado. - Beca, eu vou te passar para o taxista, você pode pedir por favor para que ele me leve até algum hotel super barato, por favor.
Ian respondrau à Beca, mas seu poder de raciocínio havia deixado seu corpo cerca de um minuto atrás.
- Ian, preste atenção! - Falou Beca, despertando o rapaz de algum mundo muito distante de tal realidade que estava presenciando. - Eu vou pedir ao motorista que te deixe onde estou morando. Você está me entendendo, Ian? - Perguntou Beca, certificando-se de que o rapaz estava acompanhando sua fala. 
Ian respondia mais com gestos do que com a própria audição, mas Beca pode ouvir um "ahan" ao fundo.
- Há uma chave enterrada na areia do casa - continuou Beca - em frente a porta da casa, use-a para entrar, entendeu? - Perguntou Beca. - Me passe para o taxista. - Eu preciso desligar, estou pegando minha mala, te ligo de volta daqui trinta minutos, ok? - Respondeu Beca, após dar as instruções ao motorista.
O motorista do táxi estranhou o comportamento indiferente do rapaz, mas carregava uma risada de zombaria que devia exibir a todos os turistas que não sabiam falar seu idioma.
- Is your first time here? - Perguntou o motorista, querendo saber se era a primeira vez de Ian por ali, obviamente ele queria testar o nível de conhecimento do rapaz quanto ao seu idioma.
Talvez num momento de sobriedade Ian teria dado uma resposta mais coerente, mas tudo o que pode responder foi: "no, thanks" que na verdade queria dizer "não obrigado". O motorista soltou uma larga gargalhada e ligou o taxímetro rumo, acelerando rumo à casa de Beca.

Capítulo 12 - Correspondências - Parte 2

O correio acaba de deixar uma carta na caixa postal de Ian, o rapaz não se aguenta de euforia ao ver o nome de Beca como remetente.
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Ian segurava o envelope com um sorriso de triunfo no rosto, o correio havia atrasado as entregas, o rapaz esperava a resposta de Beca havia semanas. Não seria novidade afirmar que o coração de Ian chegava às mãos quando o assunto era sua eterna namorada. Ian não só a amava, mas também gostava de Beca, como quando encontramos aquela amizade a quem tanto queremos bem, era uma cumplicidade, um desejo mútuo de querem compartilhar suas alegrias, de fazer um ao outro feliz e isso era o que mais tornava esse amor tão especial.
Enquanto lia as palavras de Beca, Ian chorava, ria, ficava sério e até torcia a boca numa típica expressão de concordância. Quando terminou de ler, Ian aproximou a carta do rosto, como se pudesse sentir Beca e então descansou o papel sobre a cama e foi em direção à escrivaninha, pegando um caderno e caneta.
Beca, meu amor!
Preciso dizer que esses dias sem notícias foram um verdadeiro desafio, nossos desencontros me deixam a beira de um surto, não poder olhar em seus olhos e ver o brilho desses cachos dourados...ah maldito fuso horário, mas fiquei demasiado feliz quando finalmente chegou sua correspondência!
Começo a pensar que talvez eu seja o lado feminino dessa relação, eu odeio a saudade que venho sentido de nós, de você aparecendo na porta de casa para passearmos, de sentir seu cheiro, de sentir a paz que você me trazia num simples abraço, ou apenas por sorrir...ah seu sorriso, que saudade do seu sorriso e de saber que muitas vezes fui o motivo para tê-los. Sabe que ando até mesmo questionando esses poetas romanticamente incuráveis, que fazem a saudade parecer algo tão lindo...o que tem de lindo nela? Toda vez que a saudade parece me sufocar eu abro a internet e penso em comprar uma passagem apenas de ida até você, mas logo caio na realidade de um estudante universitário sem condições de enfrentar a alta do dólar...mundo narcisista! As coisas deviam ser feitas de amor, compradas por compaixão, com troco em abraços e beijos e não regidas por impostos e corrupções.
Sobre eu me lembrar da época que você ia naquele grupo de apoio à deficientes, lembro sim, na verdade eu nunca falei por medo de você talvez me xingar, eu sabia que você não era muito a favor de frequentar esses grupos, mas eu sempre quis acompanhar uma das sessões, ouvir as histórias que essas pessoas tem para compartilhar é algo que julgo que todos deveriam fazer algum dia. Eu nunca entendi por que as pessoas que se acham tão  perfeitas e agem com  tanta indiferença com as que julgam deficientes, achar-se perfeito é o princípio de uma vida medíocre, penso eu. Mas, isso é um conflito meu, minha mãe costumava dizer que eu sofria mais do que as outras crianças porque eu era um super herói e só via o melhor das pessoas, mas, a verdade é que as coisas são assim. Eu lembro que a primeira vez que eu te vi, te achei, na minha ingenuidade, uma privilegiada por poder andar numa cadeira de rodas, aí fomos crescendo e eu percebi que o sortudo era eu em te ter por perto. Mesmo que a gente não chegasse a namorar, você sempre teria me feito muito feliz, apenas por estar por perto. Mas confesso que na noite da formatura alcancei um pedaço do céu quando percebi que poderia ter mais...Ah como eu te amo Maria Rebeca, minha Bequinha, amo o jeito com que deve estar torcendo o nariz ao ler seu nome composto, amo a maneira como arruma o cabelo num cacho perfeito, amo ainda mais poder desfazê-lo e sentir o perfume do shampoo que ele distribue enquanto balança, enfim te amo e não há distância que possa mudar isso! (suspiros)
Fico feliz com a possibilidade, mesmo que remota, de te ver andando, estarei torcendo daqui!
A partir da próxima semana devo responder com menos frequência as cartas, começaremos uma espécie de competição para ganhar uma vaga em um dos mais importantes escritórios de advocacia do Rio de Janeiro e também as primeiras etapas do TCC, enfim, já estou tentando preparando o psicológico para noites de sono abreviadas e um tempo maior sem contato com você... Ainda assim, será uma grande oportunidade estou bastante confiante quanto às minhas chances, apesar de estar competindo contra outros 345 alunos. Não é só uma oportunidade única de carreira, é uma chance de ouro de entrar como associado numa potência em advocacia. Quase posso me ver de terno e gravata, entrando numa sala de tribunal e defendendo com unhas e dentes os fracos e oprimidos. (risos).
Bom, faltam menos de três meses para o fim do ano e caramba, as passagens estão cada dia mais caras, mas estou louco para ir te ver, tentarei economizar ao máximo.
Até breve.
Não se esqueça do meu amor!